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Beato José de Anchieta
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Missionário e Evangelizador dos índios
"Aqui fizemos uma casinha pequena de palha, e a porta estreita de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e a trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão... A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e mais raramente ainda, alguma caça do mato." Trecho de carta de Anchieta a Inácio de Loyola -1554.
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As Origens
"Criou-se José em casa de seus pais... aos 14 anos foi enviado, com outro irmão de maior idade, à celebérrima Universidade de Coimbra, que então florescia no mundo, para que ali aperfeiçoasse a língua latina e atendesse a maiores ciências. Estas versou nas escolas dos padres da Companhia de Jesus e cresceu nelas de maneira que em breve tempo foi consumado em todo gênero de humanidades..." Trecho de A Vida do Venerável Padre José de Anchieta de Simão de Vasconcellos,S.J. -1623.
A própria ascendência de Anchieta já parecia destiná-lo a um futuro de grandes realizações. Nascido em São Cristóvão da Laguna, na Ilha de Tenerife, teve como pai João Lopes de Anchieta, da província de Guipuscoa. Revolucionário, tomou parte na Revolta dos Comuneiros contra o imperador Carlos V, na Espanha. Condenado à morte, foi salvo por interferência de um parente militar ilustre, o capitão Inigo de Loyola (Inácio de Loiola, mais tarde fundador da Companhia de Jesus). Por precaução, mudou-se para as Canárias. A mãe de Anchieta, Mência Dias de Clavijo y Llarena, natural das próprias Canárias, era neta de conquistadores.
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Anchieta no Brasil
Era dia 13 de julho de 1553, quando Anchieta chegou ao Brasil, o "paraíso terrestre", como descreviam os historiadores contemporâneos do padre. A Terra de Santa Cruz podia ser considerada um sanatório onde aportavam doentes com tuberculose, varíola e outras doenças contagiosas. Anchieta tinha 19 anos. era o mais jovem dos jesuítas na esquadra do Governador Duarte da Costa. A saúde do noviço melhorava sensivelmente. Quando desceu em Salvador estava praticamente curado. Para José de Anchieta e todos os jesuítas que vieram evangelizar o Novo Mundo, os índios eram pagãos a serem convertidos. O próprio papa Paulo III havia publicado, em 1537, a bula Sublimis Deus, que considerava todas as raças iguais em face da redenção. Os evangelizadores acreditavam que não havia salvação fora da Igreja e até imaginavam, antes de conhecer as condições de vida na América, que qualquer pessoa só poderia ser católica se vivesse de acordo com a civilização cristã européia. O irmão José acabou se tornando o elo de aproximação definitiva entre os índios e os padres. Conseguiu unificar a língua falada pelos nativos, com a qual apresentou a doutrina cristã.
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Tamoios X Portugueses
O padre Manuel da Nóbrega, sabedor da facilidade de Anchieta em aprender línguas, de se comunicar com os índios e da sua resistência física, não hesitou, no ano de 1563, em levá-lo junto para as negociações de paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses da região de Ubatuba. Oito anos antes, os franceses tinham se estabelecido na Baía da Guanabara, onde logo se aliaram aos tamoios contra os tupis e os portugueses. Várias tentativas de expulsar os invasores tinham resultado num impasse, com os dois lados combatendo o tempo todo. Os indígenas de Iperoig - hoje Ubatuba - também foram convencidos a se aliar a seus irmãos da Guanabara, formando a Confederação dos Tamoios. O governador Mem de Sá encarregara Nóbrega de tentar fazer os tamoios de Ubatuba desistirem dessa aliança. Os tamoios estavam em duas aldeias: uma na praia, chefiada pelo cacique Cunhambebe, e outra no alto do monte, sob o comando do cacique Pindobuçu.
Anchieta entrou nas aldeias falando em voz alta, como era costume dos índios, em perfeito tupi. Em pouco tempo ele e Nóbrega puderam construir um pequeno altar na cabana que os abrigava. Auxiliado por Anchieta, Nóbrega passou a rezar a missa diariamente. Os índios, movidos pela curiosidade e atraídos pelas cores dos paramentos, passaram a assistir às missas. Anchieta começou a fazer pregações em tupi, abrindo o caminho para evangelizar a tribo. Com Anchieta como intérprete, Nóbrega tratava da paz e ficou sabendo que os tamoios também queriam a paz. Estavam cansados de perseguir e matar portugueses, mas nada tinham a reclamar dos franceses da Guanabara, que lhes davam armas, ferramentas e roupas. O único obstáculo à paz eram os tupis, inimigos dos tamoios e aliados dos portugueses. A cordialidade dos tamoios mal disfarçava a sensação contínua de perigo iminente. Nóbrega e Anchieta ficaram isolados do mundo: os navios em que tinham vindo estavam na Guanabara, onde também se tentava um acordo. E permaneciam sob constante ameaça dos índios mais exaltados, irritados com o simples fato de a tribo ter recebido os dois jesuítas amigos dos portugueses. Logo Anchieta ficou inteiramente só. Nóbrega voltou a São Vicente para finalizar o tratado de paz. Passava horas em meditação caminhando pela praia. Começou, então, a compor e a decorar os versos de um longo poema dedicado à Virgem Maria. Terminado o cativeiro, escreveu de memória o poema inteiro.
"Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima, Te prometi em voto, Enquanto entre tamoios conjurados, Pobre refém, tratava as suspiradas pazes, tua graça me acolheu em teu materno manto E teu poder me protege intatos corpo e alma." Trecho do Poema da Bem Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus - Padre José de Anchieta
"A mundana soberba Entumece um coração orgulhoso E a paixão violenta anuvia-lhe os olhos. Ele não te contempla, ó Virgem, Envolvida nesse ninho fulgurante de luz e no clarão de tua eterna virgindade Não admite que pudesses ficar com voto o teu coração, Pisando triunfante o disco variável da lua. Não crê que de seu tálamo pudesse sair o sol radiante Sem rangerem as portas nos seus gozos." Trecho do Poema da Bem Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus - Padre José de Anchieta
Por fim a paz foi acertada. Depois de cinco meses como refém, Anchieta partiu com uma ponta de tristeza: sentia deixar desamparadas as almas que estava conquistando para Cristo. Os índios também não esconderam sua melancolia pela partida do pajé branco que falava com Deus, lhes ensinava a doutrina cristã e tratava de suas doenças. No mesmo ano de 1563, o perigo da morte, com a qual Anchieta convivera diariamente em Ubatuba, voltou a ameaçar o jesuíta e os índios do Planalto de Piratininga: em sua volta o esperava a epidemia de varíola, espalhada pelos europeus, que mataria trinta mil índios em toda a costa brasileira. Os férteis campos de Piratininga logo se transformaram num vasto hospital a céu aberto. Nessa ocasião, Anchieta valeu-se do conhecimento das ervas nativas que tinha desenvolvido. Nos casos mais graves, recorria aos sangramentos - em média de dez por dia -, que apavoravam os índios, já bastante assustados pela doença que nunca tinham visto.
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São Sebatião do Rio de Janeiro
Debelada a epidemia de varíola, a ameaça dos tamoios fez Nóbrega chamar de novo Anchieta. Desta vez tinham de ir à Guanabara, ajudar na fundação de um forte e uma cidade para fazer frente aos franceses apoiados pelos tamoios. O governador Mem de Sá incumbiu da tarefa seu sobrinho Estácio de Sá, que, para povoar o vilarejo, chamou gente de outras capitanias e até de Portugal. Mesmo com a resistência do inimigo, o povoado, que recebeu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, começou a se tornar realidade em janeiro de 1565. Ali os portugueses, depois de muita luta, expulsaram os franceses e derrotaram definitivamente os tamoios em janeiro de 1567. Durante esses dois anos, Anchieta serviu como mensageiro, levando notícias dos acontecimentos do Rio a Mem de Sá, na Bahia. Ainda em 1566, numa dessas idas e vindas, o irmão José finalmente realizou na Bahia, aos trinta anos, o sonho de se tornar sacerdote, pelas mãos de Dom Pedro Leito, bispo do Brasil, que fora seu colega de estudos em Coimbra.
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Obra de Fé
O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento e sua fé, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro. Além de abrir caminhos que se transformariam em estradas, contribuiu para manter unificado o país nos séculos seguintes. Lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil e começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de ser escravizados. Com seus dotes inatos de comunicador, conseguiu com o indígena um amplo entendimento. O homem de muitas faces que foi Anchieta transparece com nitidez nas palavras do poeta paulista Guilherme de Almeida:
"Santo erguestes a cruz na selva escura. Herói, plantastes nossa velha aldeia Mestre, ensinastes a doutrina pura Poeta, escrevestes versos sobre a areia. Golpeia a cruz a foice inculta e dura invade a vila multidão alheia, morre a voz santa entre a distância e a altura apaga o poema a onda espumante e cheia."
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Oratório do Beato Anchieta
Em 25 de janeiro de 2002, foi inaugurado, nas dependências da Igreja, um oratório dedicado ao Beato José de Anchieta, cuja canonização está em andamento. O Pe. José de Anchieta teve papel destacado não somente na fundação do colégio que deu origem à cidade de São Paulo, mas também por seu envolvimento total com a evangelização dos indígenas e com sua cultura, razão pela qual é considerado o Apóstolo do Brasil. O oratório abriga duas relíquias significativas do Beato José de Anchieta: parte de um fêmur do jesuíta, além do manto largamente utilizado em suas incessantes jornadas catequéticas. Ainda no oratório, encontra-se uma cópia da certidão de batismo de Anchieta e uma imagem de Nossa Senhora da Candelária, padroeira das Ilhas Canárias, local de nascimento do Beato.
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